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Cadernos de Area

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[14 Oct 2004|03:10pm]
"Fazemo-nos à estrada sempre jurando voltar. Levamos os aromas, pétalas de flores, grãos de areia, como se quiséssemos manter uma ligação, um caminho aberto para o regresso aos locais por onde passamos.
Mas no fundo sabemos bem que o que levamos connosco são apenas lembranças que se vão esvaindo - e que não voltam. As pétalas murcham, os aromas desvanecem-se, os grãos de areia misturam-se.
Ainda vejo o teu rosto, sabes, mas o teu nome... Qual era afinal o teu nome?..."
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[04 Jan 2004|05:08am]
"Quebram-se os ciclos com o virar do tempo, quando o sol seca as águas que ainda há pouco corriam rua abaixo salpicando as poucas pessoas que se atreviam a esperar no passeio por um transporte que acabaria por nunca chegar.
Deixaste de ser o que nunca foste, Simon. E eu, que nunca encontrei forma de encaixar o que se passou no pouco que sei sobre nós, consigo finalmente ver-nos como deveria sempre ter sido. E sorrio por isso."
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[29 Oct 2003|05:59pm]
"Depois da chuva é como se renascesse o mundo. A erva é mais verde, cheira a terra molhada. Lá ao fundo sente-se que há um mar ainda revolto, de espuma na crista das ondas, mas até esse acabará por amansar e trazer a calmaria de um azul imenso na próxima maré."
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[02 Oct 2003|11:40am]
"Há tanto nesta viagem que me perturba. Acumulo desilusões e desencantos, tenho feridas que duvido que sarem. Há tudo o resto, claro. Há pessoas bonitas, há noites como esta, uma brisa a aliviar o calor. Mas em certas alturas o peso da tristeza dói muito mais que a leveza de um sorriso."
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[30 Sep 2003|07:30pm]
"Silenciamos as palavras durante tempos absurdos, é demasiado, de tal maneira demasiado que quando as queremos usar já nos esquecemos delas, ou então lembramo-nos mas queimam-nos a língua ao sair.
Não há como escapar, não há outras palavras em vez destas - e sem elas, não há fim."
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[30 Sep 2003|03:13pm]
"Fico parada a ver-te afastar cada vez mais, até seres um pontinho difícil de distinguir no horizonte. E embora sejas tu que caminhas a passos primeiro tímidos e cada vez mais decididos, deixando-me para trás, aqui parada, não consigo deixar de pensar que quem se afasta sou eu, eu que por medo da queda nunca serei verdadeiramente capaz de tentar voar."
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[02 Sep 2003|09:45am]
"Promete-me apenas isto: que não te deixarás amarrar à memória do que nunca foi."
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[27 Aug 2003|06:12pm]
"É só de Inverno que se pode conhecer a Praia. A areia é mais fina, o rebentar das ondas molha-nos o rosto e eu recordo-me daquele outro Inverno em que me largaste a mão e eu te deixei voar.

Estás bem. Lá onde estiveres, eu sei que estás bem."
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[05 Aug 2003|01:37am]
"Há dias em que me deito sem perceber o porquê de tudo isto, para quê estas viagens, para quê o caminhar, a estrada começa a asfixiar-me, não sei respirar o ar livre que dantes me fazia falta. os meus passos têm o peso de uma vida muito mais longa que a que vivi.

Olho para mim e não consigo perceber o que vejo."
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[25 Jul 2003|11:39am]
"O tempo que nos afasta é o tempo que nos une - a distância desfoca os contornos, é como a água do mar que alisa as pedras desta costa, afaga as cicatrizes e acaricia a dor.

Cada vez mais me sobram precisamente as memórias que eu não queria recordar."
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[22 Jul 2003|02:27pm]
"Não tenho tempo para a ilusão do teu mundo, Martin, tenho de ir ver o mar."
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[13 Jul 2003|01:27pm]
"Passo de uma praia de areia para uma cidade de pedra onde a altivez serena das igrejas e das velhas torres olha num confrangedor silêncio a volúpia estridente das novas construções. Abraço-me às pedras e às zonas antigas - é aí que sinto a genuína dimensão da alma deste local."
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[01 Jul 2003|02:54pm]
"Sabes que há algo em ti que me fere, um grito de um pássaro abatido, um sopro indefinido de melancolia. Que poderias tu esperar de mim? Se as feridas que me reabres com o passar dos teus dedos pela minha pele são as mesmas que me fizeram partir, como posso eu ficar?"
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[12 Jun 2003|01:27pm]
"A minha caminhada confunde-se comigo. É a minha própria vida que se altera a cada passo que dou."
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[12 Jun 2003|08:58am]
"Há quatro ou cinco cidades que consigo distinguir pelo som - o barulho dos carros no asfalto, o andar mais ou menos apressado das pessoas, até a forma como o vento sopra as folhas nos parques dos pequenos bairros - conheço as cambiantes e os coloridos desses sons.
São essas as cidades em que me sinto em casa, por mais longe que esteja."
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[13 May 2003|11:03am]
"O Jan foi das poucas pessoas que não me perguntou porquê. Que não perguntou porque escolhi tudo isto, porque escolhi partir, porque escolho continuar.
Nunca falámos directamente sobre este assunto, mas suspeito que desde o início ele percebeu que a questão não era realmente essa, mas outra: a minha vida não é uma escolha, é o meu único caminho."
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[09 May 2003|06:50pm]
"Cada pedra que pisas molda-te a planta dos pés.
Caminhas e a caminhada torna-se mais fácil - e às vezes tens a sorte de encontrar uma daquelas pedras que te magoam mas que guardas para te acompanhar na viagem, porque percebes que afinal o que magoa não é a pedra, mas sim deixá-la para trás no caminho."
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[29 Apr 2003|05:27pm]
"Por vezes o Jan parece cansado, como se lhe esmorecesse o brilho que lhe via nos olhos nos primeiros dias em que se juntou a esta caminhada. Passámos tanto juntos Jan, meu amigo, Fliegende Holländer. Que te ensombra o espírito dessa forma?
Eu posso ter começado isto sozinha, mas seria agora incapaz de o terminar sem ti. A minha solidão já não faz sentido senão a dois."
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[15 Apr 2003|12:57pm]
"Será justo que a esta distância me visites dessa forma? Não será desrespeito por ti próprio esse quebrar da quietude do tempo para um regresso que nem acredito que tu próprio desejes? Acabou, Luc, acabaste tu com tudo ao acabares contigo próprio.

E eu já te tinha libertado, peguei no que nos restava e atirei-o ao ar, como fiz ontem com aquela mão-cheia de erva no topo da pedra de granito que coroa esta montanha. Porque é que então voltaste? Porquê o teu nome outra vez a cantar-se ao meu ouvido enquanto durmo? Porquê o acordar carregado de memórias que jurei deixar para trás?"
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[10 Apr 2003|12:05pm]
"A primeira vez que aqui estive - lembro-me que havia flores trazidas pelo vento e um pólen amarelo amontoava-se nos degraus das portas e nos parapeitos das janelas. Os poucos carros que passavam levantavam pó na estrada de terra batida e eu ouvia uma gaivota ao longe, para lá das copas dos eucaliptos que misturavam o aroma das suas folhas com o sal da maresia.
O teu pequeno jipe, um tom de amarelo a manchar o castanho-avermelhado dos terrenos abandonados. Rimo-nos muito nesse dia. E eu bem precisava.

Voltar aqui agora desilude-me um bocadinho. A estrada é a mesma, o pó ainda se levanta quando há um carro que passsa, os eucaliptos ainda ali estão. Mas não ouço nenhuma gaivota e não vejo flores no ar. E falta reparar numa mancha amarela pelo canto do olho, ouvir aquela buzina e rir-me de novo contigo.
E eu bem preciso."
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