(no subject)

"Fazemo-nos à estrada sempre jurando voltar. Levamos os aromas, pétalas de flores, grãos de areia, como se quiséssemos manter uma ligação, um caminho aberto para o regresso aos locais por onde passamos.
Mas no fundo sabemos bem que o que levamos connosco são apenas lembranças que se vão esvaindo - e que não voltam. As pétalas murcham, os aromas desvanecem-se, os grãos de areia misturam-se.
Ainda vejo o teu rosto, sabes, mas o teu nome... Qual era afinal o teu nome?..."

(no subject)

"Quebram-se os ciclos com o virar do tempo, quando o sol seca as águas que ainda há pouco corriam rua abaixo salpicando as poucas pessoas que se atreviam a esperar no passeio por um transporte que acabaria por nunca chegar.
Deixaste de ser o que nunca foste, Simon. E eu, que nunca encontrei forma de encaixar o que se passou no pouco que sei sobre nós, consigo finalmente ver-nos como deveria sempre ter sido. E sorrio por isso."

(no subject)

"Depois da chuva é como se renascesse o mundo. A erva é mais verde, cheira a terra molhada. Lá ao fundo sente-se que há um mar ainda revolto, de espuma na crista das ondas, mas até esse acabará por amansar e trazer a calmaria de um azul imenso na próxima maré."

(no subject)

"Há tanto nesta viagem que me perturba. Acumulo desilusões e desencantos, tenho feridas que duvido que sarem. Há tudo o resto, claro. Há pessoas bonitas, há noites como esta, uma brisa a aliviar o calor. Mas em certas alturas o peso da tristeza dói muito mais que a leveza de um sorriso."

(no subject)

"Silenciamos as palavras durante tempos absurdos, é demasiado, de tal maneira demasiado que quando as queremos usar já nos esquecemos delas, ou então lembramo-nos mas queimam-nos a língua ao sair.
Não há como escapar, não há outras palavras em vez destas - e sem elas, não há fim."

(no subject)

"Fico parada a ver-te afastar cada vez mais, até seres um pontinho difícil de distinguir no horizonte. E embora sejas tu que caminhas a passos primeiro tímidos e cada vez mais decididos, deixando-me para trás, aqui parada, não consigo deixar de pensar que quem se afasta sou eu, eu que por medo da queda nunca serei verdadeiramente capaz de tentar voar."

(no subject)

"É só de Inverno que se pode conhecer a Praia. A areia é mais fina, o rebentar das ondas molha-nos o rosto e eu recordo-me daquele outro Inverno em que me largaste a mão e eu te deixei voar.

Estás bem. Lá onde estiveres, eu sei que estás bem."

(no subject)

"Há dias em que me deito sem perceber o porquê de tudo isto, para quê estas viagens, para quê o caminhar, a estrada começa a asfixiar-me, não sei respirar o ar livre que dantes me fazia falta. os meus passos têm o peso de uma vida muito mais longa que a que vivi.

Olho para mim e não consigo perceber o que vejo."

(no subject)

"O tempo que nos afasta é o tempo que nos une - a distância desfoca os contornos, é como a água do mar que alisa as pedras desta costa, afaga as cicatrizes e acaricia a dor.

Cada vez mais me sobram precisamente as memórias que eu não queria recordar."