"Passo de uma praia de areia para uma cidade de pedra onde a altivez serena das igrejas e das velhas torres olha num confrangedor silêncio a volúpia estridente das novas construções. Abraço-me às pedras e às zonas antigas - é aí que sinto a genuína dimensão da alma deste local."
"Sabes que há algo em ti que me fere, um grito de um pássaro abatido, um sopro indefinido de melancolia. Que poderias tu esperar de mim? Se as feridas que me reabres com o passar dos teus dedos pela minha pele são as mesmas que me fizeram partir, como posso eu ficar?"
"Há quatro ou cinco cidades que consigo distinguir pelo som - o barulho dos carros no asfalto, o andar mais ou menos apressado das pessoas, até a forma como o vento sopra as folhas nos parques dos pequenos bairros - conheço as cambiantes e os coloridos desses sons. São essas as cidades em que me sinto em casa, por mais longe que esteja."
"O Jan foi das poucas pessoas que não me perguntou porquê. Que não perguntou porque escolhi tudo isto, porque escolhi partir, porque escolho continuar. Nunca falámos directamente sobre este assunto, mas suspeito que desde o início ele percebeu que a questão não era realmente essa, mas outra: a minha vida não é uma escolha, é o meu único caminho."
"Cada pedra que pisas molda-te a planta dos pés. Caminhas e a caminhada torna-se mais fácil - e às vezes tens a sorte de encontrar uma daquelas pedras que te magoam mas que guardas para te acompanhar na viagem, porque percebes que afinal o que magoa não é a pedra, mas sim deixá-la para trás no caminho."
"Por vezes o Jan parece cansado, como se lhe esmorecesse o brilho que lhe via nos olhos nos primeiros dias em que se juntou a esta caminhada. Passámos tanto juntos Jan, meu amigo, Fliegende Holländer. Que te ensombra o espírito dessa forma? Eu posso ter começado isto sozinha, mas seria agora incapaz de o terminar sem ti. A minha solidão já não faz sentido senão a dois."
"Será justo que a esta distância me visites dessa forma? Não será desrespeito por ti próprio esse quebrar da quietude do tempo para um regresso que nem acredito que tu próprio desejes? Acabou, Luc, acabaste tu com tudo ao acabares contigo próprio.
E eu já te tinha libertado, peguei no que nos restava e atirei-o ao ar, como fiz ontem com aquela mão-cheia de erva no topo da pedra de granito que coroa esta montanha. Porque é que então voltaste? Porquê o teu nome outra vez a cantar-se ao meu ouvido enquanto durmo? Porquê o acordar carregado de memórias que jurei deixar para trás?"
"A primeira vez que aqui estive - lembro-me que havia flores trazidas pelo vento e um pólen amarelo amontoava-se nos degraus das portas e nos parapeitos das janelas. Os poucos carros que passavam levantavam pó na estrada de terra batida e eu ouvia uma gaivota ao longe, para lá das copas dos eucaliptos que misturavam o aroma das suas folhas com o sal da maresia. O teu pequeno jipe, um tom de amarelo a manchar o castanho-avermelhado dos terrenos abandonados. Rimo-nos muito nesse dia. E eu bem precisava.
Voltar aqui agora desilude-me um bocadinho. A estrada é a mesma, o pó ainda se levanta quando há um carro que passsa, os eucaliptos ainda ali estão. Mas não ouço nenhuma gaivota e não vejo flores no ar. E falta reparar numa mancha amarela pelo canto do olho, ouvir aquela buzina e rir-me de novo contigo. E eu bem preciso."